Consumo cultural e espaços sociais: o que forma um consumidor de bens culturais no Brasil?

Daniela Giannini e Karen Gomes

Foi com a urbanização, a revolução industrial e o desenvolvimento da indústria cultural que a cultura se desmembrou em produto de consumo. A possibilidade da produção em larga escala universalizou o consumo e levou à grande parte da população uma área de conhecimento antes completamente restrita às elites. Em contrapartida, trouxe um rebaixamento da qualidade dos bens culturais, que passaram de instrumento de livre expressão, crítica e conhecimento – embora muito restritos a determinados grupos – para um produto, com finalidade de lucro, moldado de acordo com as necessidades do mercado.

Não há um grande consenso intelectual sobre as consequências positivas e negativas dessa universalização dos bens culturais. Adorno e Horkheimer, teóricos da Escola de Frankfurt, condenam amplamente a indústria cultural e afirmam que ela funciona unicamente como instrumento de alienação, transformando o consumidor em um mero joguete do sistema. Por sua vez, na década de 60, o filósofo francês Edgar Morin escreveu sobre os problemas da cultura de massa – como a padronização e a exaltação de valores individuais transitórios – mas também exaltou algumas vantagens trazidas pelo novo sistema, como a criação de um terreno de comunicação entre diversas classes sociais, já que todas teriam o acesso aos mesmos bens.

Entre vantagens e desvantagens, o fato é que vivemos em uma sociedade regrada pela lógica do consumo e onde a cultura sempre foi elevada como fundamental nos processos de civilização. Sendo assim, o consumo cultural tem um significado que vai além do acesso a bens de produção artística, mas significa também o acesso à informação e à possibilidade de formação cidadã. Se na sociedade contemporânea é no consumo que as pessoas se expressam e constroem sua identidade, a análise do consumo cultural é essencial para compreender as interações e as distinções sociais.

A segunda edição da pesquisa Panorama Setorial da Cultura Brasileira, realizada entre 2013-2014, traz dados que podem não surpreender, mas representam um grande indicador de desigualdade não apenas no acesso aos bens culturais, mas ao direito da formação cidadã por meio da cultura.  Os dados coletados em 74 municípios nas cinco regiões do país, apontam que mais da metade dos entrevistados não participaram de nenhuma prática cultural fora de casa no último ano. De forma geral, a pesquisa mostra que o consumo de bens e atividades culturais ainda é realidade distante da maior parte dos brasileiros.

A pesquisa também constatou uma forte e decisiva influência familiar nos hábitos culturais, demonstrando que educação e formação são ainda mais determinantes do que a falta de acesso financeiro na criação de consumidores de cultura. Isso significa que, para grande parte da população, é o nível educacional que limita o consumo dos bens culturais. Ter na herança familiar o principal fator de formação de público, perpetua uma organização sistematicamente exclusiva no que diz respeito à cultura. Cabe ao setor público investir na formação artística, priorizando formas de educação que ensinem a ler o mundo simbolicamente e deem condições para o exercício da cidadania, formação de opinião e participação nos processos políticos e sociais oportunizados pelo acesso aos bens culturais.

O direito à cultura caminha lado a lado com a geração de direitos sociais, civis e políticos e está diretamente conectado à educação e cidadania. O indivíduo que consome cultura tende a ser mais equilibrado entre perspectivas individuais e coletivas. O acesso aos bens e atividades culturais são essenciais para a ampliação de horizontes e para a formação de cidadãos mais orientados para o bem coletivo.

Daniela Giannini e Karen Gomes são jornalistas e produtoras culturais, e idealizadoras e editoras da revista Circular Pocket.

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